Arte e psicologia em exposição no Espaço Arteducação
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Entre agosto e setembro de 2023, o Espaço Arteducação, da Faculdade de Educação da UFMG, apresenta as pinturas do professor e artista Kastyllo. A exposição conta com 17 pinturas de técnica mista cuja temática adentra os vários aspectos psicológicos do fazer e pensar arte.

Intitulada “O Estranho-Familiar”, a exposição mostra aspectos que podem provocar sentidos consonantes e dissonantes ao mesmo tempo e traz para o público o figurativo em ambiências cotidianas, revelando, também, o artista em seu caminho de investigação e transgressão da forma. Kastillo tem uma paleta cromática intensa com cores fortes e contrastantes. Suas composições acolhem a sobreposição de técnicas e materialidades, já que é possível identificar telas com tinta à óleo, acrílica, spray e até aplicações de bordado. As composições transbordam sentidos múltiplos que permitem percepções plurais de cada cena construída. As imagens apresentam clara influência do campo da psicanálise, área de formação do artista. Outro ponto de destaque é o traço solto nas linhas que conformam ambiências, ora bastante aproximadas da linguagem da ilustração, outras vezes tendem para o cubismo, algumas obras registram permeabilidade com características expressionistas e, nesse fluxo, entre o reconhecimento e o estranhamento, a exposição convida o público a percorrer os detalhes em cada textura, forma e cor nas cenas (in)conscientemente criadas por Kastillo. Para o artista:

as composições são tentativas de apreensão e de compreensão do estado atual da banalidade da vida juntamente com uma perplexidade de algo que possa incomodar os sujeitos nas cenas cotidianas. Estas imagens retratam como os corpos podem ser afetados no encontro com a radicalidade da alteridade, produzindo um corte diacrônico na sincronia cotidiana das imagens. (KASTILLO, 2023)

Neste contexto, durante quatro semanas da vida universitária, uma sequência de pinturas com cores e formas atravessa todos os que transitam pelo corredor da FaE. A exposição para ver, pensar, sentir e também ouvir, é acompanhada pelo som da música eletrônica da banda inglesa “Depeche Mode”.

Sendo a Faculdade de Educação um campo fértil para a formação docente nas mais diversas áreas, a exposição “O Estranho Familiar” traz à tona possibilidades de gerar atravessamentos com a arte, seja pela partilha de composições fantásticas, intrigantes e inquietantes, seja pela presença de um professor artista na galeria, seja pela oportunidade de conviver com o questionamento, com o pensamento crítico, com a problematização. Um caminho de ocupação do espaço público universitário, democrático, plural e aberto ao diálogo e à afetação sensível de corpos diversos — docentes, discentes, servidores, público externo — em prol da formação de uma sociedade que reconheça e valorize a educação, a arte e a cultura.

As obras estão em exposição no Espaço Arteducação no período de 19 de agosto até 19 de setembro de 2023.

Kastyllo, Brasil, 1976, professor da FaE/UFMG e artista visual. Nesta exposição, o artista, influenciado pela psicanálise, alia questões próprias aos pós-modernistas e não deixa de pensar a pintura como uma narrativa que precisa se reencontrar na cena do estranho inapreendido pelo sujeito contemporâneo.

Siga Kastyllo no instagram para acompanhar os trabalhos do artista: @kastyllopaintigns

Siga o Espaço Arteducação no instagram para acompanhar as próximas exposições: @espacoarteducacaofaeufmg

Confira o texto de abertura da exposição:

O que é um quadro? Uma “aparência que diz que ela é o que dá a aparência”i.

O ser-quadro reinsere no real a confissão mimética da aparência, fazendo passar aos sentidos as margens excluídas da realidade que supomos compartilhar.

O quadro nos olha, ao mesmo tempo que o enxergamos. Cada um no seu quadrado. E é nossa a aparência que passa a pertence-lo na proporção em que a ele “arrendamos”ii, como disse uma vez Jacques Lacan, a gleba de mundo que até então habitávamos… apesar das aparências. Os quadros de Kastyllo interpelam, com as ferramentas da aparência, substâncias do cotidiano, vociferações da norma social contemporânea, gramáticas do visível, ocultas forças que se desprendem do estático registro do pincel. Cenários por vezes claustrofóbicos como os habitáculos de Van Gogh, que tremem sob a pressão de nossas retinas, numa resultante em que a expressão é também, e principalmente, espessura. Semblantes humanos se transfiguram, coisificam se, acossados pela voz sem dono de uma mensagem abstrata. Things don’t need you. Fazendo eco ao poema de Antônio Cicero, “quem disse que eu, tinha de precisar”? Outros olhos, que regem, invisíveis, o teatro de metamorfoses daqueles que se supõem senhores em suas próprias casas. “Outros olhos, e armadilhas”, que o pintor apreende e fixa na forma a um tempo tosca e suavizante de uma pintura que lê. Desprovidos de olhos, os mais humanos de seus seres reivindicam o testemunho de suas travessias e travessuras, pinceladas sobre ou em torno das nossas retinas fatigantes.

Franqueando fronteiras e litorais entre a forma e o informe, pequenos exercícios geométricos suprimem sentidos de volume e perspectiva forjando, pela diversão da deformidade, a experiência de um lugar estranho de tão comum.

Por vezes a pincelada anda junto com o fraseado, e se “inclui fora”v desse. O dizer que ex-siste à imagem toma ali, em seu retorno, semblante material. Em seus extremos, na arte de Kastyllo tudo é coisa, ou esforço, como diz Jacques Rancière, de “reinscrição indefinida”vi. “Anamnese da Coisa”vii, exame do repositório incessível de onde a realidade provém, desaparentada, mas em exuberantes paletas de cores, ângulos viscerais, e semblantes de sideração. O pintor e seu duplo dialogam, e o inconsciente ganha lugar de imagem, delicadamente monstruoso. Arte gentil com o inacabado, com o não-nascido, com o não-todo designado. Arte, finalmente, cordial com aqueles que a frequentarem, e que comunica, por seus objetos, também seus fins. Parafraseando Anne Cauquelin, a mensagem que transita dentro pode ser menos importante que a visibilidade em siviii. O estilo de Kastyllo? Melhor seria instruir-se com aquilo que por detrás de seu pincel se escreve, nos rastros de seu stylo.

Guilherme Massara Rocha
(Psicanalista. Músico e professor do Departamento de Psicologia da UFMG)

Galeria

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